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BASQUETE - O ESPORTE DO SÉCULO XXI

O BASQUETEBOL E O GOSTO DE DECIDIR

O Basquetebol é o esporte mais expressivo das pugnas típicas das sociedades industriais, dos grandes aglomerados humanos do final século vinte e início do terceiro milênio, do tipo de vida e do esforço necessário à sobrevivência em sociedades altamente competitiva.

Como nas ruas repletas da explosão demográfica, no Basquetebol “viver” é esbarrar.

O que caracteriza a vida nas sociedades competitivas? Luta, sempre..

Nenhum descanso.

Atividade doentia.

Nenhum esporte coletivo exige tanta mobilização (permanente e conjunta) da equipe.

No Basquetebol ninguém pára. Jamais.

No Futebol a defesa descansa enquanto o ataque se esfalfa (esgota-se).

E vice-versa.

Há hiatos, paradas, pausas.

Idem no Vôlei.

Basquetebol não.

Os quintetos correm e jogam com ou sem bola.

O tempo todo.

É infalível.

A hiper-atividade do Basquetebol traz o traço   central constitutivo das sociedades industriais.

A necessidade de produzir e a corrida pelo progresso material não param, jamais, a pretexto de nada.

O elemento simbólico mais sutil da associação do basquetebol é a sociedade pragmático- industrial (aplicações práticas), está no fato de que o cronômetro para a cada interrupção de jogo.

Em outras palavras: durante as horas de trabalho não há folga.

É luta extensa e intensa, jamais pretensa.

A palavra tensa aparece e é oportuna com seus prefixos, pois tensão permanente é a regra do bem jogar Basquetebol, como do bem servir (escravatura disfarçada)

à sociedade industrial.

O Basquetebol é o talvez mais tenso dos jogos.

Exige atletas do mesmo tipo de homens preparados para a sociedade        industrial contemporânea: aguerridos, super-treinados, incansáveis, grandes e pertinazes trabalhadores profissionais.

Esta tensão é responsável pela presença permanente da briga corporal.

O Basquetebol deve deter o recorde de brigas em campo.

E com grande razão!

A tensão necessária a jogá-lo (mesmo com calma, experiência e precisão) predispõe o sistema nervoso à explosão.

Ninguém agüenta tensões prolongadas e o Basquetebol é o mais tenso dos jogos.

Tenso, porque o resultado pode mudar de repente por vacilação, cansaço ou súbita perda de tônus da equipe. Um bom desempenho não basta.

E preciso ademais saber ganhar.

A falência é ameaça.

Na sociedade industrial os sistemas esmeraram-se em ter homens tensos, trabalhando por pressão sem poder falhar.

Os erros são imperdoáveis porque fatais.

Tenso, porque os territórios não são respeitados,Tênis, Vôlei, Tênis de Mesa atacam o adversário do próprio território.

Como no Futebol,

Basquetebol é um jogo de invasão.

Incursiona-se na propriedade do inimigo.

Para tal usa-se estratagemas.

A resultante é a tensão inerente a toda invasão.

E a tensão gera conflito.

A guerra simbólica do Basquetebol quase sempre reflui para o real.

Dai tanta briga.

Basquetebol é, portanto mobilização total das forças e aguerreamento permanente.

Não tem tempo para beleza ou poesia.

Beleza utilitária, sim, decorrente de algumas jogadas que, por dar certo enganando a resistência, mereça o aplauso.

É um jogo que não permite contemplação:

É a ação permanente, vigilância, tática, fôlego.

Um jogo pragmático, portanto, como a sociedade competitiva, que atrai temperamentos práticos, objetivos, pessoas de ação ou que gostem de missões secretas ou estratégicas.

A invasão do território inimigo sempre obedece a altas estratégias.

Os caminhos estão sempre bloqueados, de perto.

Para minar o inimigo são necessários emissários serviços secretos, penetração oculta e sempre fugidia em suas defesas (garrafão).

Os ataques são rápidos e fulminantes, vale-se da capacidade de simular e enganar.

Não há tempo para raciocínio demorados.

Como na sociedade pragmática, ou se decide rápido ou a oportunidade passa, jamais volta e o inimigo dela se aproveita.

Essa característica tensa, imediatista, estratégica e super objetiva do Basquetebol leva a sua prática pessoal que por natureza ou profissão tem uma inteligência prática, lógica e gosta de decidir.

Não é um jogo dialético (lógico) metafísico, poético ou político.

É pragmático, de ação, de decisão, implacável com quem vacila ou não está preparado. Um jogador em dia ruim no Futebol não compromete fundamentalmente uma equipe.

Um destoante no Basquetebol impede a plenitude.

Mobilizar, eis sua regra.

Exigir, es sua ética.

Lutar sempre na tentativa de vencer o adversário menos aguerrido, eis sua mecânica. Diferente da sociedade industrial e pragmática na qual cresceu?

Não: é igual a ela em suas características.

Dai a consonância entre o sucesso do Basquetebol e o século vinte.

Outro elemento presente no Basquetebol é o da diluição do prazer do trabalho.

Quem o pratica sente prazer é certo.

Porém o prazer é misturado com enorme trabalho.

É um grande esforço que só se compensa com a vitória, jamais com a disputa.

Até nisso se liga aos ditames (deve ser) na sociedade

industrial, preocupada sempre com os resultados práticos de sua atividade: o Basquetebol não se concede grandes prazeres, folgas, comemorações.

As ações são sempre vigiadas de perto.

O adversário está sempre em cima atalhando.

Não há tempo para enfeites e jogadas sem objetividade, válidas apenas pela beleza implícita dos gestos.

Quem inova demais não serve. A marcação é cerrada.

Tudo é sempre interrompido, cortado, impedido.

É preciso sagacidade, esperteza, rapidez, para vencer as defesas e barreiras. permite comemoração orgástica.

Feita, é voltar correndo para mais ação, mais ação, mais ação, até o fim. Nada de efusões, delírios de prazer, alegria, comemoração, euforia pela posse do apertado e cobiçado canal cesta.

No final, sim, comemorar.

Prazer durante o trabalho?

Jamais!

Perturba a produção...

Essa interrupção permanente do prazer.

O mover-se em espaços apertados e vigiados.

A inexistência de profundidade espacial (no Futebol há passes de trinta metros) como representação da desnecessidade de qualquer forma de profundidade (espiritual, humana, artística) necessária ao desempenho pragmático.

A tensão constante e o dogma fundamental de que só há vitória quando somos mais aguerridos que o adversário caracterizam a atualidade do Basquetebol no século vinte.

De todos os esportes é o que talvez melhor represente os valores e as atitudes típicas das sociedades industriais: valem a produção, a objetividade e o resultado.

O resto é secundário.

Prazer?

Profundidade?

Beleza?

Espiritualização?

Sim, na vida pessoal, jamais no trabalho.

TEXTO DE ARTHUR DA TÁVOLA

 

 

 


  em: 30/05/2008

 
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